Parece que um usuário do Facebook criou um inquérito sobre se Obama deveria ou não ser assassinado. Vai daí, Thomas Friedman escreveu um texto em que, entre outras coisas, defendeu que esse incitador de ódio fosse posto na cadeia. Assim mesmo, sem sequer querer saber se o inquérito era sério ou apenas uma piada fraca.

Idêntico raciocínio levou, há tempos, os pais de uma adolescente a ligarem o seu suicídio às letras das músicas do grupo punk My Chemical Romance, que ela ouvia. Escusado será dizer que processaram a banda (não sei se já houve desfecho do processo). E por cá, o vereador lisboeta José Sá Fernandes proibiu a afixação de um cartaz – aquele das ovelhas brancas e negras; sim, aquele igualzinho ao dos fascistas suíços – do PNR por incitamento à xenofobia.

Não só nem sempre estamos plenamente convictos do que dizemos, como aquilo que nos é dito pode ou não influenciar-nos. As palavras podem ou não ser móbil para uma acção espelhada. O presidente da ERC disse há tempos que a nomeação de Rui Tavares para o Parlamento Europeu deveu-se, em grande parte, à sua exposição mediática. Esqueceu-se foi de acrescentar que Vital Moreira também a tinha e que levou banho de Paulo Rangel, um perfeito desconhecido meses antes e sem poiso na imprensa. Se calhar não somos assim tão influenciáveis…

Devemos criminalizar as palavras incitadoras de ódio só porque elas podem conduzir alguns a agir em conformidade? Se sim, devemos fazê-lo só se tiver havido comportamento violento? (De um pessoa basta, ou de quantas no mínimo?) E se a palavra, independentemente de haver ou não comportamento conforme, pode ser criminalizada, como pode ser considerada justa uma punição ao autor do inquérito se, na mesma altura, a Bíblia não for erradicada e o blogue de José Maria Martins bloqueado? Todos eles contêm palavras ou expressões que podem gerar comportamentos violentos. Onde está a diferença?